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Colegas de Domicílio



Quando passei a morar na minha atual residência, fui recebida sem muitas felicitações pela moradoras daqui. Atualmente, posso até afirmar que temos uma relação de respeito, uma para com as outras. Por vezes já parei para pensar no desconforto que foi para elas ter que dividir moradia com uma desconhecida, e poderiam questionar qual seria o seu destino caso fossem rejeitadas.
As tais colegas de domicílio tratavam-se de insetos blatídeos de forma achatada, de hábitos noturnos; podem ser silvestre, mas essas eram domésticas. Mais conhecidas como baratas.
No início nossa convivência não era das melhores, havia embate o tempo todo. Um voo de lá, um susto de cá; pisões, perseguições. Mas com o tempo fomos nos acostumando com a presença umas das outras.
Certo dia eu estava andando pelas dependências da casa, como quem queria explorar o espaço, e me deparei com uma delas. Vinha desatenta. Certamente procurava por comida. O fato é que ambas não esperávamos o encontro e o contato foi inevitável.
- Que nojo! Ela me tocou! Ela me tocou!                                                       
Então a barata saiu apressada, parou embaixo do armário enquanto esfregava as patas uma na outra, insistentemente, como se quisesse limpá-las. Eu apenas a observava.


Crônica: A ESPREITADA

 
Nos dias atuais observa-se uma grande dependência dos celulares. Esses pequenos aparelhos que antes serviam apenas para realizar ligações, hoje trazem uma infinidade de facilidades e contribuem com a quebra de barreiras do mundo globalizado.

O principal exemplo dessa quebra de barreiras é o modo como nos comunicamos com pessoas do outro lado do globo ou simplesmente do outro lado da rua. Porém, ao mesmo tempo vivemos um paradoxo, pois pelo mesmo motivo as pessoas tem se distanciado. Trocam relações reais por virtuais, isso quando as tem.

Essas relações virtuais se originam da grande quantidade de redes sociais que nos prendem e nos distrai o tempo todo, não importa o lugar onde estamos: no ônibus, na igreja, na sala de aula ou no trabalho.

Todos os dias quando pego um ônibus para ir até a faculdade observo a quantidade de pessoas com seus aparelhos, muitas vezes até em pé no corredor por falta de assento, mas não largam as redes sociais.

Recordo-me que uma certa vez, estava eu em pé, em um ônibus lotado. Como de costume, segurava-me na lateral de uma das cadeiras e passei a observar a moça que estava sentada nela. Assim como muitos dali, ela mexia no celular. Notei que por várias vezes ela me olhava com incomodo, como se me acusasse de espreitar sua conversa virtual. Indignei-me com a suspeita da acusação.

Por que eu iria querer olhar para o celular dela para saber da conversa que ela estava tendo com Luíza sobre o dia em que ela foi perseguida pelo cachorro da Dona Francisquinha da rua de baixo, por ter tentado fazer um carinho nele enquanto carregava uma sacolinha com dois reais de salsicha e que ela acabou dando as salsichas para o cachorro para se livrar da perseguição? 

Colegas de Domicílio

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